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HISTÓRIA DO KG

KARMANN-GHIA: SUA HISTÓRIA

O que faz de um objeto uma obra de arte? O que constitui um clássico? Essas questões nos vêm à mente ao observarmos um Karmann-Ghia. Mais que um automóvel, ele adquiriu um status de objeto de desejo justamente por possuir características que vão além de seu desenho perfeito e sua mecânica simples e resistente.

O Karmann-Ghia conquistou corações e mentes no mundo todo justamente por captar o espírito de uma época, seu nascimento deu-se em um momento histórico especial do século XX, quando as revoluções sociais apontavam para um caminho de fronteiras cada vez mais abertas, mulheres buscavam sua independência, novos costumes eram incorporados ao dia a dia e o fim de duas guerras abria espaço para uma atmosfera de sonho e glamour se incorporar ao cotidiano das famílias.

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O INÍCIO DE TUDO

A história do carro reflete esses novos tempos também na união da carroceria alemã com o design italiano. Em 1954 se iniciou a saga do Karmann-Ghia, quando a empresa de Osnabrück aceita uma cobiçada encomenda da Volkswagen para a produção de um novo esportivo.

A Karmann foi pioneira na adoção de maquinário industrial, mas sua origem como oficina de fabricação de carruagens se fez notar na capacidade de proporcionar ao carro uma feição artesanal, com montagem em pequenas peças, características de um esportivo, mas também com ares de um sedã, graças à sua mecânica baseada no chassi clássico da Volks.

No entanto, os primeiros desenhos desenvolvidos foram reprovados, o que levou o presidente Wilhelm Karmann a buscar a solução na Itália, mas precisamente em Turim, no estúdio Ghia, onde trabalhava Luigi Segre. A Ghia garantiu a leveza do desenho desenvolvido numa empresa repleta de talentosos estilistas, os quais mantinham a tradição dos artesãos de metal que vinha desde a monarquia.

O resultado da parceria foi apresentado primeiramente na França, em uma festa pequena no aniversário da queda da Bastilha, em 14 de julho de 1955. Somente durante a Feira de Automóveis de Frankfurt o mundo foi apresentado ao carro que traria requinte acessível a todos. O Karmann-Ghia tinha linhas em proporções perfeitas, aerodinâmica eficiente e motor de 30 cv que alcançava 120 km/h.

A recepção ao carro foi muito positiva, o vice-presidente da Volkswagen na época, Karl Feuereisen, reagiu dizendo que o carro possuía classe, o presidente, Heinz Nordoff, foi mais comedido e manifestou preocupação com o preço, uma vez que o carro tinha diversos detalhes e demandava prensas grandes para produção.

Mas a maior prova do sucesso foram as vendas, em pouco tempo havia mais encomendas do que a fábrica podia fornecer e a lista de espera crescia não só na Europa como também nos Estados Unidos.

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A SAGA BRASILEIRA

O sucesso do Karmann-Ghia repercutiu também no Brasil, mesmo em uma época em que as informações demoravam a chegar, a fama do carro já existia por aqui. Foi por acreditarem nesse potencial que em 1959 os empresários Harold Gessner e Friedrich Schutz-Wenk apostaram alto e decidiram trazer ao País a única fábrica da Karmann fora da Alemanha.

Inicialmente a fábrica só produziu peças para outras montadoras, mas em 1962 o Karmann-Ghia brasileiro foi a estrela do III Salão do Automóvel de São Paulo e alcançou enorme sucesso como seu exemplar europeu. Logo o carro conquistou os brasileiros e se incorporou no imaginário nacional.

O projeto resumiu bem a multiplicidade de culturas característica do Brasil, europeus e latino-americanos se uniram na empreitada, mostrando mais uma vez a sintonia do carro com sua época, seu ambiente. Não é possível precisar os motivos que levaram à instalação da Karmann-Ghia do Brasil, mas é notável como ela conquistou um papel de destaque na indústria brasileira e mudou a história da ainda iniciante produção automotiva nacional.

A Karmann-Ghia do Brasil foi também responsável por introduzir no País seu primeiro modelo hatch: o Karmann-Ghia TC, baseado na plataforma da Variant, ele foi o pioneiro no desenvolvimento do ainda tímido setor de estilo nas montadoras brasileiras.

A produção do carro durou 19 anos na Alemanha e 13 anos no Brasil. A Karmann-Ghia do Brasil provou ser uma aposta ousada, porém certeira; ela disseminou o espírito empreendedor e de dedicação e precisão surgido na fábrica alemã no início do século XX.

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A COROAÇÃO DE UM CLÁSSICO

O Karmann-Ghia contribuiu enormemente para o automobilismo, ele popularizou acessórios como os vidros sem molduras, as maçanetas push-button, as molas no capô e os vidros panorâmicos em curva. Foi ele também que consagrou o conceito de carro boulevardier, o veículo propício para ver e ser visto.

Transformou-se também em um marco do design, suas linhas continuam servindo de inspiração para novas gerações de carros e o renascimento do interesse na aquisição do carro é prova disso.

O Karmann-Ghia pode não ser o carro mais veloz, mais tecnológico ou mais econômico de sua geração, mas ele é eterno porque conseguiu compreender em si total equilíbrio: a harmonia das formas compõe um desenho atemporal, capaz de atrair e causar o mesmo impacto geração após geração.

O escritor Italo Calvino, em sua análise sobre os clássicos, cita que eles têm a capacidade de se mimetizar como inconsciente coletivo ou individual. O Karmann-Ghia captou em si um período em que as pessoas ousaram experimentar seus sonhos, colocar em prática novas percepções. Isso faz dele um clássico indiscutível.

Fontes:
CALVINO, Italo. Por Que Ler os Clássicos. Companhia de Bolso, 2007.
LEPPKE, Cliff. Karmann-Ghia, VW’s Carrera for the Common Man and Woman, in: VW Trends Magazine. Março de 2009.
SANDLER, Paulo Cesar. Karmann-Ghia – O design que virou história. Ed. Alaúde, 2010.